O teu retargeting pode estar a comprar audiência que nunca vai comprar nada.
Não é uma hipótese distante. O tráfego automatizado já ultrapassou o tráfego humano em grande parte da web. E quando uma pessoa visita o teu site, um scraper recolhe informação ou um agente de inteligência artificial consulta uma página, muitas plataformas continuam a registar sinais semelhantes: visita, sessão, visualização de produto, interesse.
Depois, esses sinais entram numa audiência de retargeting.
Tu pagas para voltar a alcançar essa audiência. O algoritmo optimiza campanhas com base nela. Os relatórios mostram actividade. Mas uma parte crescente dessa actividade vem de máquinas.
O problema não é apenas das agências ou das plataformas de publicidade. É de quem paga a factura.
Mais de metade do tráfego HTML já é não-humano
De acordo com os dados da Cloudflare sobre o estado do tráfego web em 2026, os sistemas automatizados representaram 57,5% do tráfego HTML em Junho de 2026.
O número ultrapassou a previsão anterior em cerca de 18 meses.
É importante perceber o que isto significa — e o que não significa.
Não quer dizer que 57,5% das pessoas online sejam bots. A métrica refere-se a pedidos HTTP para conteúdos HTML, não a pessoas, tempo de leitura ou sessões completas. Um único crawler pode fazer milhares de pedidos num curto período. Um visitante humano pode fazer apenas algumas dezenas.
Ainda assim, a conclusão é relevante para o marketing: uma parte maior do que aquilo que as ferramentas registam como “actividade web” é produzida por software.
E os crawlers estão a mudar.
Na Primavera de 2025, cerca de 22% dos pedidos de crawlers identificados pela Cloudflare estavam relacionados com treino de inteligência artificial. Em Junho de 2026, esse valor já tinha subido para 52%.
Além disso, mais de 36% da actividade dos crawlers vinha de sistemas de uso misto, que combinam funções de pesquisa, agentes e treino. A fronteira entre um motor de pesquisa, um assistente de compra e uma máquina de recolha de dados está cada vez menos clara.

O que isto está a fazer ao teu marketing
Durante anos, o retargeting funcionou com uma premissa simples:
- Uma pessoa visita o teu site.
- A plataforma regista esse comportamento.
- Essa pessoa entra numa audiência.
- Recebe anúncios quando navega noutros sites.
- Regressa para comprar.
Essa sequência continua a existir. O problema é que o primeiro passo já não significa necessariamente que uma pessoa esteve no teu site.
Pode ter sido:
- Um crawler de treino de IA;
- Um scraper a copiar os teus produtos;
- Um bot de fraude;
- Um sistema de monitorização de preços;
- Um agente de compra a pesquisar em nome de um cliente;
- Um navegador automatizado a testar formulários ou páginas;
- Um visitante humano real.
Se todos estes comportamentos activarem o mesmo pixel ou evento, a tua audiência deixa de representar potenciais clientes. Passa a representar pedidos feitos ao teu servidor.
Métricas de volume ficam menos fiáveis
Impressões, visualizações de página e visitas podem crescer sem que a atenção humana cresça na mesma proporção.
Isto afecta directamente:
- O tamanho das audiências de retargeting;
- Os cálculos de alcance e frequência;
- Os públicos semelhantes;
- A atribuição de conversões;
- O custo por aquisição;
- A avaliação do retorno da publicidade;
- A aprendizagem automática das campanhas.
Uma plataforma pode identificar um padrão de “visitantes interessados” e tentar encontrar mais utilizadores semelhantes. Mas se o sinal original estiver contaminado por bots, o algoritmo pode estar a optimizar para actividade barata e não para intenção de compra.
O teu relatório parece activo. A tua campanha parece estar a aprender. Só que está a aprender com ruído.
O CPM sobe quando tentas limpar a audiência
A Digiday descreveu este problema no contexto do retargeting e da compra programática.
Os clientes de comércio electrónico da GoFish registaram um aumento de 80% no tráfego de bots num ano. Quando a agência estreitou os parâmetros de retargeting para reduzir a exposição a tráfego suspeito, o CPM subiu cerca de 20%.
É uma consequência previsível: quando retiras inventário duvidoso, ficas com menos oportunidades disponíveis. A audiência pode melhorar, mas o custo de a alcançar aumenta.
O problema é que muitas empresas só descobrem esta troca depois de o desempenho se degradar.
Algumas agências já estão a retirar clientes da compra programática e a transferir investimento para ambientes como Google, Amazon e Meta. Outras estão a privilegiar redes de retail media e plataformas sociais, onde existe mais informação sobre identidade e intenção.
Para vários anunciantes, o tráfego de bots foi descrito como “o último prego no caixão” do retargeting tradicional.
A atribuição também fica embaralhada
Imagina que um bot visita uma página de produto, activa um evento e é incluído numa audiência. Mais tarde, uma campanha mostra publicidade a esse identificador. O sistema regista uma impressão.
Se existir uma conversão fraudulenta, pode até atribuir a compra à campanha.
O resultado é uma história falsa sobre o que está a funcionar.
Podes concluir que:
- O retargeting está a gerar vendas;
- Um determinado anúncio tem melhor desempenho;
- Um segmento de visitantes tem maior propensão de compra;
- Uma frequência elevada está a aumentar conversões;
- Uma campanha merece mais orçamento.
Na realidade, podes estar a medir uma combinação de máquinas, compras fraudulentas, sessões repetidas e alguns clientes verdadeiros.
A RPA identificou precisamente este tipo de problema: compras fraudulentas e atribuição distorcida. A LERMA/ observou uma deterioração contínua do desempenho do retargeting.
Não basta perguntar “quantas conversões tivemos?”. Tens de perguntar que tipo de actividade originou essas conversões e com que grau de confiança?
Nem todos os bots são maus
Aqui está a parte que torna o problema mais interessante.
Bloquear tudo também pode ser um erro.
Um scraper que copia o teu catálogo não é igual a um agente de inteligência artificial que procura um produto para um cliente real. Um bot de fraude não é igual a um assistente de compras que compara preços, características e disponibilidade.
A Mellow Sleep, uma marca de almofadas, não está tão interessada em bloquear todo o tráfego automatizado como em classificá-lo. Segundo o caso citado pela Digiday, os assistentes de IA que chegam ao site convertem várias vezes melhor do que a média dos visitantes.
A John Lewis registou um crescimento das pesquisas agênticas de 0,3% para 2,5% das visitas num ano.
Isto mostra uma mudança importante: alguns agentes não estão a consumir conteúdo por curiosidade. Estão a ajudar alguém a decidir o que comprar.
O mesmo firewall pode, no entanto, tratar da mesma forma:
- Um crawler de treino;
- Um bot malicioso;
- Um sistema de fraude;
- Um assistente de compra;
- Um agente autorizado pelo cliente.
Bloquear todos significa perder potenciais compradores. Aceitar todos significa abrir a porta à fraude, ao scraping e ao desperdício publicitário.
A resposta não é bloquear. É classificar.

O que deves fazer no teu negócio
1. Deixa de optimizar apenas para volume
Não uses visitas, impressões ou visualizações de página como prova suficiente de interesse.
Dá mais peso a acções de alta intenção:
- Adicionar um produto ao carrinho;
- Pedir uma proposta;
- Iniciar uma conversa;
- Marcar uma reunião;
- Criar uma conta;
- Subscrever uma lista;
- Descarregar um documento relevante;
- Concluir uma compra;
- Regressar com uma sessão autenticada.
Quanto mais distante estiver o evento de uma decisão real, maior é o risco de estar contaminado por actividade automatizada.
2. Constrói dados first-party
O activo mais importante não é a audiência que uma plataforma te deixa alugar. É a relação que consegues manter directamente com o cliente.
Recolhe, com consentimento e utilidade clara:
- Endereços de email;
- Contas de cliente;
- Preferências;
- Histórico de compras;
- Produtos guardados;
- Pedidos de informação;
- Interesses declarados;
- Interacções autenticadas.
Os dados first-party não eliminam todos os bots, mas dão-te sinais que uma simples visita não dá. Uma conta criada, uma compra validada ou uma preferência indicada pelo cliente têm muito mais valor do que um pedido anónimo a uma página.
É a mesma lógica da dependência de plataformas e da importância de controlar os teus próprios activos digitais: se não tens os dados, a audiência e os canais, estás sempre dependente da interpretação de terceiros.
3. Usa verificação pré-bid e inclusion lists
Se investes em publicidade programática, não aceites inventário apenas porque está disponível a um preço baixo.
Avalia:
- Verificação de tráfego inválido;
- Exclusão de fontes com padrões suspeitos;
- Inclusion lists de sites e aplicações aprovados;
- Qualidade dos placements;
- Diferença entre cliques e sessões reais;
- Comportamento pós-clique;
- Taxa de conversão por origem;
- Repetição anormal de eventos.
O inventário mais barato pode ser o mais caro quando não produz atenção humana.
4. Testa retail media e ambientes com identidade
Redes de retail media, como as ligadas a grandes retalhistas, podem oferecer sinais de compra mais próximos da realidade: pesquisas internas, categorias consultadas, compras anteriores e intenção declarada.
Não são automaticamente perfeitas. Nenhuma plataforma é.
Mas quando comparas uma audiência baseada numa visita anónima a uma página com uma audiência baseada numa pesquisa de produto dentro de um ambiente autenticado, a diferença de qualidade pode ser significativa.
5. Cria uma classificação própria do tráfego
Não trates todos os agentes como iguais.
Pelo menos, separa:
- Tráfego humano autenticado;
- Tráfego humano não autenticado;
- Crawlers de pesquisa;
- Agentes de compra;
- Crawlers de treino;
- Scrapers;
- Bots de fraude;
- Tráfego suspeito sem classificação.
Define o que cada categoria pode fazer, que dados pode consultar e que eventos podem entrar nas tuas audiências de marketing.
Este trabalho exige website, analytics, publicidade e processos comerciais alinhados. Não é apenas instalar mais um plugin ou activar uma opção escondida numa plataforma.
O retargeting preguiçoso acabou
A era em que bastava colocar um pixel numa página, criar uma audiência e confiar no relatório está a chegar ao fim.
A web tem mais máquinas. Os agentes de IA vão continuar a crescer. O chamado Google Zero — um cenário em que o utilizador obtém a resposta directamente na pesquisa ou num assistente sem visitar o teu site — vai pressionar ainda mais os modelos baseados em tráfego.
Mas isto não significa que as oportunidades desapareceram.
Significa que tens de ser mais rigoroso sobre o que conta como sinal, visita, intenção e conversão.
Quem continuar a comprar audiências às cegas vai pagar para alcançar máquinas. Quem construir dados próprios, validar as fontes e classificar o tráfego poderá vender a pessoas — e aos agentes que compram por elas.
A pergunta deixou de ser “quantas pessoas visitaram o meu site?”.
Agora é: que parte dessa actividade consigo realmente compreender, validar e transformar em negócio?