Faz sentido fazer SEO se as respostas vêm todas pela IA? A pergunta parte de uma ideia que não corresponde à realidade: as respostas não vêm todas pela IA. As pessoas continuam a pesquisar no Google, e o Google continua a enviar muito mais visitantes para sites do que o ChatGPT.
Mas há uma segunda parte que também importa: o SEO já não é o mesmo trabalho de há cinco anos. A resposta direta é, por isso, sim, continua a fazer sentido. Só que o trabalho se dividiu em três: ser encontrável, ser citável e ser nomeado. Se só medes posições no Google, estás a acompanhar uma parte do jogo — e a deixar duas por medir.
Os dados não mostram o fim da pesquisa. Mostram uma mudança.
Um estudo recente que analisou mais de 40 mil sites nos Estados Unidos encontrou uma queda de apenas 2,5% no tráfego orgânico de pesquisa em 2025, face ao ano anterior. As visitas aos motores de pesquisa mantiveram-se praticamente estáveis desde 2023. A nível mundial, o tráfego para o Google até subiu 0,8% em 2025, e os visitantes aumentaram 1,4% no último trimestre desse ano, em comparação com o mesmo período de 2024.
O Google continua a publicar mais de cinco biliões de pesquisas por ano. Portanto, a pesquisa tradicional não desapareceu.
Ao mesmo tempo, o tráfego para ferramentas de IA cresceu de praticamente zero, em 2022, para 23 mil milhões de visitas mensais em julho de 2025. Depois, estabilizou nos 22 a 23 mil milhões. São canais diferentes a coexistir: um não prova que o outro deixou de ter valor.
Os números globais também escondem diferenças importantes. Notícias, saúde, culinária e entretenimento perderam mais de 10% do tráfego orgânico. Roupa, compras e marketplaces subiram. Os sites de média dimensão foram mais pressionados do que os maiores.
Por isso, quando ouves «perdi 40% do tráfego», pergunta: em que setor, em que período e em que tipo de pesquisa? A realidade de um site de notícias não é automaticamente a realidade de uma empresa de serviços em Lisboa.
Um estudo com mais de 40 mil sites é uma amostra ampla, mas não representa todos os negócios. Os dados de painel têm limitações, e os inquéritos podem exagerar a mudança porque dependem da memória e da perceção de quem responde. Também convém reconhecer que quem defende o SEO pode beneficiar dessa conclusão. Os dados são relevantes, mas não são uma promessa de que o teu tráfego ficará intacto.
O que a IA mudou de verdade
A mudança mais visível está nas respostas geradas dentro da pesquisa. Os AI Overviews aparecem em cerca de 21% a 30% das pesquisas analisadas, sobretudo nas consultas informativas e longas. Num conjunto de dados, surgiam em 46,4% das pesquisas com sete ou mais palavras, mas em apenas 9,5% das pesquisas de uma palavra.
Quando aparecem, podem reduzir de forma significativa os cliques nos resultados tradicionais. As estimativas variam conforme o estudo e a forma de medir: uma análise encontrou uma quebra de cerca de 35% nos cliques para os resultados de topo; outra mediu uma redução ainda maior para páginas bem posicionadas. Mesmo a posição 10 perdeu cliques.
Isto não significa que todas as pesquisas tenham o mesmo destino. As consultas informativas e genéricas estão mais expostas. As pesquisas comerciais e de marca têm, em geral, outra dinâmica.
Também se quebrou a relação simples entre «estar bem posicionado» e «ser citado pela IA». Em algumas análises, 28,3% das páginas mais citadas pelo ChatGPT não tinham visibilidade orgânica para as palavras-chave observadas. Nas citações dos AI Overviews, 31% vinham de páginas fora dos primeiros 100 resultados do Google.
A conclusão é prática: posicionar bem ajuda, mas não garante que a IA te escolha. E uma página que não aparece nos resultados tradicionais pode, ainda assim, contribuir para uma resposta.
As fontes também mudam de uma observação para outra. O conteúdo dos AI Overviews pode mudar cerca de 70% das vezes, embora a resposta se mantenha muito semelhante. Perseguir uma URL citada num dia específico pode, por isso, levar-te a optimizar para um resultado passageiro. O trabalho mais importante é tornares-te uma fonte credível na tua categoria.

Os três trabalhos que substituem o SEO antigo
1. Ser encontrável
As ferramentas têm de conseguir aceder às tuas páginas, lê-las e perceber o que oferecem. Isso começa pelo essencial: páginas acessíveis, carregamento correcto, conteúdo bem organizado e instruções técnicas que não bloqueiem os crawlers que queres receber.
Depois, cada página deve responder a uma necessidade concreta. Não escondas a informação principal em parágrafos vagos ou em elementos que não podem ser interpretados. Explica o que fazes, para quem, onde e em que condições.
Estar bem posicionado continua a ser útil. Mas já não é suficiente.
2. Ser citável
Uma página citável apresenta a resposta de forma clara e fácil de compreender fora do contexto do site. Coloca a resposta perto do título, usa secções que funcionem por si e acrescenta tabelas quando a comparação ajuda a decidir.
O tamanho, por si só, não resolve. A correlação entre número de palavras e probabilidade de citação é quase nula; 53,4% das páginas citadas analisadas tinham menos de mil palavras. Em pesquisas de topo de funil, listas comparativas do tipo «melhores X» representavam 43,8% das fontes do ChatGPT.
Não escrevas mais só para parecer completo. Escreve para responder melhor. Inclui dados actuais, critérios explícitos, exemplos e informação que o leitor consiga verificar.

3. Ser nomeado
A IA pode falar da tua marca sem criar um link para o teu site. Apenas 28% das menções a marcas em respostas de IA incluem um link, pelo que uma parte da tua visibilidade não aparece nos relatórios de backlinks nem no tráfego de referência.
Isto torna a reputação fora do teu site mais importante. Nas análises disponíveis, as menções no YouTube apresentaram a correlação mais forte com visibilidade de marca em IA: 0,737, acima da correlação observada para links. Correlação não prova causalidade, mas o sinal merece atenção. Se a tua categoria é discutida em vídeo e a tua empresa nunca aparece, há uma lacuna que um novo backlink pode não resolver.
Há outro motivo para manter informação clara e actualizada sobre o teu negócio. Um teste de desinformação encontrou alegações falsas repetidas em 37% a 39% das respostas do Gemini e do Perplexity; no ChatGPT 4 e 5, a frequência ficou abaixo de 7%. Claude evitou repetir essas alegações, mas também não mostrou o site oficial. Não há garantia de que uma IA descreva correctamente a tua empresa. Uma página canónica sobre serviços, preços, limites e políticas ajuda a dar-lhe uma referência clara.

O que deves fazer agora
Esta semana: escolhe as pesquisas informativas mais importantes para o teu negócio e verifica quais já mostram respostas de IA. Confirma também se as páginas essenciais são acessíveis aos crawlers relevantes e se a informação principal está visível e bem organizada.
Este mês: melhora as páginas que ajudam alguém a escolher-te. Coloca a resposta principal no início, divide o conteúdo em secções claras e usa tabelas quando precisas de comparar opções. Cria ou revê uma página que explique o que fazes, para quem trabalhas, onde operas e quais são os limites do serviço.
Este trimestre: mede separadamente posições no Google, tráfego orgânico, conversões, citações em respostas de IA e menções à marca — com e sem link. Testa as perguntas importantes para o teu negócio em diferentes ferramentas e regista os resultados ao longo do tempo. As citações variam; interessa perceber se a tua marca começa a fazer parte da resposta da categoria.
Distribui também a tua presença. Não dependas apenas do teu site: considera vídeo, cobertura editorial e outras fontes independentes que ajudem a explicar o valor do teu negócio. E mantém o conteúdo actualizado. Se tens artigos que já não correspondem ao que ofereces, revê-os — como explico no artigo sobre o arquivo de conteúdo que ninguém actualiza.
Nem todos os negócios têm o mesmo problema
Se vendes serviços ou consultoria, trabalha sobretudo a clareza da oferta e a reputação. A pesquisa «quem faz X em Lisboa?» pode acabar numa resposta de IA, mas as consultas de marca e as pesquisas comerciais continuam a ser importantes.
Se tens um negócio local, não abandones o básico: ficha do Google actualizada, páginas reais para os teus serviços e avaliações recentes. A pesquisa tradicional continua a enviar mais visitantes do que qualquer ferramenta de IA, e a descoberta local ainda passa muito pelo Google.
Se o teu negócio depende de visitas a artigos genéricos — por exemplo, para gerar receita de publicidade —, a mudança é mais estrutural. Uma resposta curta pode satisfazer a pesquisa sem gerar um clique. Nesse caso, precisas de oferecer algo que a resposta não substitui: experiência própria, dados originais, ferramentas, opinião especializada ou uma relação directa com o leitor.
A pergunta já não é apenas «em que posição apareço?». É também: a IA consegue encontrar o meu negócio, tem motivos para o citar e sabe explicá-lo correctamente?
As respostas não vêm todas pela IA. Mas uma parte crescente começa aí, e essa parte não respeita sempre os rankings. O SEO continua a fazer sentido — desde que deixes de o tratar como uma lista de posições e comeces a medir se o teu negócio é encontrado, citado e escolhido.